• Colo Cumaru

Quem cuida de quem sofre precisa ser cuidado também

Relato de uma profissional da área de saúde que cuida de pessoas em sofrimento que precisou ser cuidada em seu momento de dor.


Começo esse relato, agradecendo a todos que me acolheram, que me enxergaram, que viram minhas dores, muitas vezes, sem saber quais eram. Um coração estraçalhado é capaz de sentir um acolhimento verdadeiro.


Há momentos na nossa vida em que parece que tudo simplesmente ruiu . Momentos em que estamos atravessando uma floresta em chamas, pisando em cacos de vidro. E não é porque eu, médica, que cuido de pessoas – assim como muitos outros colegas de profissão – estou livre de sofrer dores incontroláveis, cujo tamanho, muitas vezes, não há palavras para dimensionar. Acrescento um detalhe. Nesses momentos, muitos de nós paralisamos. Não somos treinados para também pedir ajuda. Achamos que vamos dar conta sozinhos.


Ledo engano. Precisamos de colo também. Eu precisei de colo.


Nesses momentos, ter amigos, família amorosa - no meu caso uma mãe presente, fez toda diferença.


Aceitar que precisa ser cuidado


Será não existe alguém capaz nos acolher em um momento de dor? Será, mesmo, que ninguém nos vê, em algum momento? Ou será que quando estamos sofrendo, ficamos tão fechados em nós mesmos que não olhamos para o lado? Quando estamos sofrendo, ficamos incapazes de falar das nossas dores? Estas e outras são perguntas que me permeiam e me fazem refletir sobre o quanto todos nós, cuidadores, precisamos nos enxergar como seres que também precisam de ajuda. Sozinhos em momentos de muita dor, se não temos apoio, tudo fica mais difícil.


Em seu livro “Os Cinco Convites”*, Frank Ostaseski, descreve a vida sofrida de uma moradora de rua, a primeira paciente do hospice onde ele trabalha. Ele relata a estória dela de perdão, sobre sua morte em paz, depois de perdoar o irmão . Ao ler essa história, foi inevitável comparar com o meu momento. Perdoar é aceitar as coisas como são e como aconteceram. É assim podermos seguir leves. O que quer que tenha acontecido não deve virar um tabu para nós. Acredito que tudo que se passou inevitável e se aproveitamos a oportunidade para aprender com os fatos, será ótimo. Se não aprendemos nada, esse é o nosso problema.



Passáro em ninho, sobre galho com folhas verdes
Foto: Maria Fernanda Gonzalez (Unsplash)

Aprendi nesse período que ser cuidada, deixar que me carregassem no colo, aliviou dores, aqueceu meu coração. Senti energias positivas chegando até mim. Senti as vibrações das orações. Senti-me fortalecida em todos os Colos de Cumaru que ganhei, mesmo que não fossem dados com palavras ou com conhecimento de causa. Senti-me acolhida e garanto que foi muito importante me sentir confortada.


A cada dia, entendo mais que quem cuida precisa ser visto, escutado e acolhido. Ressalto, novamente, algo muito importante. Muitas vezes, precisamos também pedir ajuda. Para isso, precisamos acolher e validar nossas dores.


Novamente, quero registrar minha gratidão a todos os Colos de Cumaru oferecidos, mesmo que não soubessem que o Colo significa para nós aqui nessa missão. Para nós, o Colo de Cumaru são os olhares acolhedores, os silêncios generosos, os toques afetuosos, os sabores e aromas afetivos, os minutos de descanso que possibilitam o cuidado tão necessário a quem cuida de quem cuida e tudo aquilo que permite o cuidar e o eleva a um outro patamar.


Termino, dizendo que continuo aprendendo para melhor servir.


Andrea Nancy Pontes Gomes

Aquela que dá colo

Médica ginecologista e obstetra. Homeopata. Doula da morte.

Formação de Doula com AmorTser. Mortal.


 

*Recomendo a leitura de Os Cinco Convites. O livro é sensacional.

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