• Colo Cumaru

Conversas sinceras que ensinam muito sobre a nossa finitude

Atualizado: 3 de jul.

Em uma sociedade em que a morte é tratada como tabu, tenho visto crescer o número de pessoas que se reúnem para discutir, abertamente, a finitude.


Nos dias 30 e 31 de outubro passado, participei de um encontro virtual, no qual o viver e o morrer foram a temática principal. O Festival InFINITO 2021, em sua quarta edição, reuniu cerca de mil pessoas.





Quando falo para as pessoas que participo de encontros como este, em geral, recebo olhares desconfiados. Algumas dessas pessoas chegam a me falar que deve ser difícil falar de morte o tempo todo. É claro que o tema está presente, mas quem diz que precisa ser pesado falar de a assuntos relacionados a algo que faz parte do ciclo natural da nossa vida? A médica paliativista e escritora, Ana Claudia Quintana Arantes, diz que a morte lhe ensina muito sobre a vida. Tenho aprendido com ela a limpar meu olhar e valorizar a vida a partir de outro lugar.


No InFINITO 2021, o luto, os rituais de despedida e os direitos de escolha individual foram pilares que nortearam as conversas compassivas e cuidadosas e as vivências propostas, assim como foram o ato cuidar e ser cuidado e a comunicação compassiva (quem disse que precisa ser pesado falar em morte?). Em dois dias de imersão, convidados do Brasil e do exterior compartilharam conhecimento e experiências que surpreenderam e sensibilizaram a plateia.


Cito aqui alguns exemplos da abrangência e do que considero belas, sensíveis ou surpreendentes conversas. A empresária e designer norte-americana, Katrina Spade, falou sobre a sua empresa, a Recompose, detentora da técnica de redução orgânica natural, que transforma corpos em solo. O testamento vital foi abordado pela advogada e bioeticista Luciana Dadalto, uma das principais referências sobre o tema no Brasil. Uma monja budista, um rabino, um babalorixá e padre discorreram sobre o luto em cada uma das religiões – conversa imprescindível nos dias de hoje. Pacientes paliativas contaram sobre sua experiência de serem cuidadas sob esta prática de excelência – o respeito e a dignidade transbordaram nos relatos delas. Profissionais especialistas em comunicação compassiva e comunicação não-violenta mostraram a importância das conversas sinceras nas vidas das pessoas. Conversas são curativas, garantiram.


O InFINITO 2021 foi muito mais do que o resumo acima e espero que continue sendo este espaço de conversas que devem ser pensadas para quebrar tabus e gerar conexão. O que esteve em destaque nesta edição são recortes de uma ampla gama de assuntos dentro do universo do viver e do morrer.


Encontros como este só me mostram que não há retorno no movimento iniciado de desmistificar a morte. Há, em nosso país, um número crescente de instituições que promovem estudos e capacitação em áreas como luto, cuidados paliativos, capelania e temas afins. Cada vez mais, as pessoas defendem a necessidade da regulamentação da prática dos cuidados paliativos e a urgência da criação e execução de políticas públicas na área da saúde humanizada. Há um aumento de artigos, matérias, ‘lives’ e postagens sobre temas ligados à finitude.


São várias as possibilidades de atuação, aprendizado e crescimento. Essa é uma chance única de transformação. É preciso dar o primeiro passo. Depois, é difícil retornar.



Juliana Toscano

Aquela que dá colo

Jornalista

PaliAtivista

Sentinela – Guardiã de Fim de Vida


Texto publicado por Juliana Toscano em novembro de 2021 em sua página do LinkedIn e posteriormente em julianatoscano.com

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