• Colo Cumaru

Vamos falar sobre luto?


O luto é uma resposta psicológica comum e normal após uma morte ou perda.


O luto é um momento esperado e inevitável de lidar e ajustar-se à perda. É um processo multidimensional, que envolve aspectos emocionais, físicos, sociais e cognitivos que podem mudar ao longo do tempo.


Solidão. Duas cadeiras de praia na areia, ao fundo o mar.
Foto: Engin Akyurt (Unsplash)

Colin Murray Parkes, psiquiatra britânico, compreende luto como uma importante transição psicossocial decorrente das transformações no mundo interno que, necessariamente, ocorrem a partir da vivência de um processo de perda. A partir dessa transformação, o enlutado passa a assumir novos papéis e uma nova visão de si e do mundo externo, buscando novas soluções para os problemas da vida cotidiana.


É muito comum associar o luto somente à morte de pessoas, mas ele pode ocorrer em diversas situações. O fim de uma relação amorosa, a morte de um animal de estimação, a amputação de um membro, a demissão de emprego, por exemplo. Crianças também vivenciam o luto como no caso da separação dos pais, da mudança de escola ou de cidade, quando há uma mudança significativa em suas vidas. Assim, o luto NÃO é uma patologia, é a nossa resposta natural à perda de algo ou alguém, um processo natural de adaptação.


Cada pessoa passa pelo luto à sua maneira, não há maneira certa ou errada. O luto não é linear. Ao passar pelo processo do luto, é importante que a pessoa reconheça os seus sentimentos e emoções, que não os tente esconder ou controlar. Disfarçar ou evitar o que se sente pode gerar problemas não somente no campo emocional, mas também no físico.


São diferentes os tipos de luto. Compreender como cada um deles se manifesta é essencial para o integrar, para saber como cuidar de si e também acolher os outros.


Alguns dos tipos de luto:


  • Prolongado;

  • Antecipatório;

  • Secundário;

  • Cumulativo;

  • Ambíguo;

  • Complicado;

  • Normal;

  • Não reconhecido;

  • Traumático;

  • Coletivo;

  • Atrasado;

  • Exagerado;

  • Mascarado.


Como exemplo, cito a definição de Renata Seren e Rafael Tilio para o luto antecipatório. “Diante do diagnóstico de uma doença grave, tanto paciente quanto familiares se deparam com a ameaça de continuidade da vida, trazendo impactos de diversos aspectos a cada um dos personagens envolvidos.


As alterações podem ser percebidas no âmbito físico, social, amoroso, financeiro, profissional, espiritual e emocional, vivido por cada sujeito de forma única.


No adoecimento o indivíduo necessitará se reorganizar e a ressignificação e compreensão destas mudanças se darão por meio de um processo de luto antecipatório, que pode iniciar no diagnóstico e/ou durante o curso da doença.”


As quatro fazes do luto


Existe um modelo para entendermos o processo de luto conhecido como as quatro fases do luto, proposto pelos psiquiatras britânicos John Bowlby e Colin Murray Parkes. São elas:


1. Desorientação, torpor, negação e isolamento.

Momento de grande confusão. O enlutado fica perdido diante da dor que desestrutura, não “sabe” o que sentir ou responder. Está muito presente neste processo a negação. Negação e isolamento funcionam como uma estratégia psíquica e social de proteção.


2.Anseio e busca da figura perdida.

Bowby diz que existe uma explicação biológica para essa fase: a procura, o choro são mecanismos adaptativos de tentativa de recuperação da vinculação da figura perdida. Esta fase é caracterizada por uma variedade de sentimentos, incluindo tristeza, raiva, ansiedade e confusão. A pessoa enlutada sente saudade da pessoa falecida e deseja que ela volte para preencher o vazio criado por sua morte.


3.Desorganização, desesperança, dor profunda e desespero.

Essa fase é marcada pela aceitação inicial da realidade da perda. A pessoa enlutada pode experimentar sentimentos de apatia, raiva, desespero, desesperança e tristeza. pessoal muitas vezes quer se retirar e se desconectar dos outros e das atividades que gosta regularmente.


4.Restruturação (reorganização, aceitação, restabelecimento).

Na fase final, a pessoa enlutada começa a retornar a um novo estado de "normalidade". Sentimentos intensos como tristeza, raiva e desespero começam a diminuir à medida que as memórias mais positivas da pessoa falecida aumentam. A pessoa pode experimentar níveis regulares de energia e o peso vai se estabilizar (pode também flutuar durante outras fases).


O processo de luto de cada um é diferente, as pessoas podem experimentar todas as fases nesta ordem, em uma ordem diferente, ou mesmo podem nunca as experimentar. É possível, por exemplo, sentir que se atingiu a fase 4 e depois voltar para a fase 2 novamente. Não existe um prazo certo ou errado para o luto.


 

Cuide de si e do outro


Por fim, gostaria de lembrar alguns cuidados importantes sobre como se relacionar com pessoas enlutadas e como cuidar de você em caso de vivências de luto.


  • Valide a sua dor e a dor do outro.

  • O luto leva tempo! Não force as pessoas a se sentirem BEM porque você não sabe o que fazer quando as pessoas estão tristes! Também não se force a ficar bem porque as pessoas esperam isso de você. Ficar triste é NORMAL!

  • Esteja disponível para ouvir e acolher. Evite conselhos. Nesta hora, o que importa é a sua presença, a empatia.

  • Se você não sabe o que dizer ou fazer, seja honesto e diga. Diga às pessoas que você está lá para elas caso precisem de você >> isso é uma GRANDE ajuda.

  • O luto é um processo. Seja paciente e compassivo consigo mesmo e com as outras pessoas. Você não está sozinho.

Elizangela Rubia

Aquela que dá colo

Aromaterapeuta e Educadora na área de Aromaterapia. Aplica Massagem Sonora (Soundhealing).

Formada em Medicina Tibetana no Centro de Medicina Tibetana de Milão. PaliAtivista

Sentinela - Guardiã de Fim de Vida, Tanatóloga em Formação


Leia mais sobre a importância das conversas sinceras sobre a morte e o morrer em nossa sociedade.


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